A CRUZ DA MOÇA, texto cedido com exclusividade pelo Poeta José Lacerda

Como poeta de banca
Sempre tenho procurado
Mostrar casos do Nordeste
Ocorridos no passado
Esquecidos no presente
Prá o leitor ficar ciente
E eu ficar realizado.

Pra obter bom resultado
Eu destaco com eloqüência
Os segredos da poesia
Demonstrando competência
Na maneira de agir
Procurando produzir
Da poética toda essência.

Descrevo com veemência
Uma tragédia acontecida
Há muitos anos atrás
Nesta terra ressequida
Que na seca mata gente
E se chove causa enchente
Com gente desprotegida

Deus protege a nossa vida
Da forma que bem quiser
Mas às vezes cobra caro
A nossa falta de fé
Talvez para dissolver
A formar do “ver pra crer”
Do incrédulo Tomé.

Na região de Sumé
Que São Tomé se chamava
No Cariri paraibano
Uma família passava
Por todos os sacrifícios,
Desassossegos, suplícios
Que a seca lhes obrigava.

Setenta e sete chegava
No século mil e oitocentos
Com uma tão grande seca
Registrada em documentos
Que devassou o Sertão
Acabando a criação
Causando grandes tormentos.

Na pobreza os passamentos
Persegue-lhe a precisão
O sol racha a lama seca
Não há mais água no chão
Só resta aos sobreviventes
Reunir-se e pacientes
Começar a migração

Vem de outra região
Não muito longe dali
Pajeú pernambucano
Que é vizinho ao Cariri
A notícia de haver água
Lavando a seca e a mágoa
De quem pôde resistir.

Deram então de sair
Em busca dessa riqueza
Rios Una e Pajeú
Por obra da Natureza
Um com cacimba fluía
O outro ainda resistia
Tendo água em correnteza

Coragem, muita fraqueza
E predeterminação
Sem nada prá carregar
Nessa peregrinação
Se bateram em retirada
Pelas veredas e estradas
Do Cariri e Sertão.

Uma ou outra criação
Que ainda resistia
Serviam de alimento
Durante essa travessia
Uns, farinha e rapadura
Outros somente amargura
Temperava essa agonia

A família de Maria
Moça bonita e ordeira
Que residiam num sítio
Da região caririzeira
Com os filhos desprotegidos
Temiam dos seus queridos
Ver a hora derradeira.

Ali naquela ribeira
Onde a família morava
Nem água nem alimento
Para ninguém mais restava
Perdendo a fé e a esperança
Prá fazer a tal mudança
Já todos se preparavam.

Dois cavalos só restavam,
Animais de montaria
Também com sede e famintos
Eram o que eles possuíam
No céu a lua prateada
Numa fria madrugada
Empreenderam a travessia.

Num cavalo ia Maria
Levando seu irmãozinho
No outro com outra criança
Ia a mãe devagarinho
O pai com mais um irmão
Enfrentando o pó do chão
Queimavam os pés no caminho.

Nos outros sítios vizinhos
Já ninguém mais existia
Somente casas fechadas
Cheias de monotonia
E currais abandonados
Seus donos tinham migrado
Seguindo a mesma agonia.

No fim do primeiro dia
Sem poder suportar mais
De fome, sede e fadiga
Morre um dos animais
Só restando o de Maria
Também já sem energia
Tremendo nos carracais.

Pesadelos infernais
Toda a noite os dominara
Ali mesmo onde dormiram
Ladeando uma coivara
Bem na beira do caminho
No outro dia cedinho
A viagem continuara

Maria se preparara
Para seguir caminhando
Sua mãe sem o cavalo
também seguiria andando
E a meninada iria
No dorso da montaria
Que seguia tropeçando.

Quando o sol foi esquentando
Queimando a sola dos pés
A criançada chorosa
Devido a tanto revés
O suor lavando a cara
Da miséria sanguinária
Daqueles pobres fiéis.

Suportando esse revés
Também o mato apitava
No alto da serrania
Que a estrada ladeava
Era o aviso da cigarra
Que ali naquela piçarra
Nem lagartixa se achava.

Maria desanimava
Vendo a família sofrer
Parou sua caravana
E então resolve descer
Um regato, um seco leito
Tentando de qualquer jeito
Encontrar o que comer

Veio a se comprometer
Que depois os seguiria
Eles iam no caminho
Ela a serra subiria
Se não encontrasse nada
Se encontrava na estrada
Com eles no fim do dia.

E foi assim que Maria
Da família se perdeu
Embrenhou-se na caatinga
Pelo riacho desceu
Deixando a serra prá trás
Só ossada de animais
Que pela seca morreu.

Nesse dia não comeu
Dormiu na areia fria
No outro dia cedinho
Recomeça a travessia
Cheia de mágoa e desgosto
Tentava lamber do rosto
O suor que lhe escorria

Viva alma ali não via
Sozinha em sua aflição
Cada vez mais se afastava
Perdida no socavão
Quase não mais caminhava
As forças lhe abandonava
Total desidratação.

Mais um dia de aflição
Outra noite de tormento
O corpo todo tremia
De frio, mesmo sem vento
Suor não mais transpirava
Rasgando a roupa tentava
Toma-la por alimento.

Já caída em passamento
Dali não mais levantou-se
Mastigando um lenço sujo
Logo a boca retesou-se
Outra noite e outro dia
Entra prá história Maria
E sua vida findou-se

Melhor que a história fosse
De outra forma contada
Sabemos que nossa vida
Nesta terra é limitada
Se somos todos iguais
Pra que uns sofrer demais
E outros não sofrer nada?

Aquela desventurada
Que rezou tanto na vida
Com fé em Nossa Senhora
Pela fome foi vencida
Sempre conviveu com os seus
Lembrando o nome de Deus
E foi por Ele esquecida.

Na paisagem ressequida
Seu corpo ficou secando
Sua família distante
Pela filhinha esperando
Passaram um dia acampados
Já quase desenganados
Continuaram viajando.

E foram se aproximando
Das planícies pajeús
Deixando atrás a caatinga
Da Serra dos Sucurus
Já mato verde avistava
E ao longe já se escutava
O canto dos inhambús

Em campos cheios de luz
Sentiram felicidade
Porém lembrando da filha
Todos sentindo saudade
Sem desconfiar por certo
Que ela fora a céu aberto
Vítima da fatalidade

Duas semanas mais tarde
Urubus denunciaram
A matéria decomposta
Que a eles alimentaram
Foi assim que caçadores
E outros agricultores
O corpo morto encontraram

Ali mesmo a enterraram
Junto a grandes alcantis
Ficando essa nódoa triste
No Riacho dos Cariris
Que tantas cheias botou
E na seca testemunhou
Esse cenário infeliz.

Deus, o Supremo Juiz
Que só justiça produz
Não puniu uma inocente
Apenas mostrou-lhe a luz
Lhe dando o caminho certo
Prá se lhe livrar do deserto
Da Serra dos Sucurús

Marcaram com uma cruz
O lugar que ela morreu
E onde foi sepultada
Cumprindo o destino seu
Dali pro reino da Glória
Segundo os anais da história
Que sabem mais do que eu

No outro ano choveu
Volta o verde novamente
A água enche os riachos
Deixando o povo contente
Maria foi esquecida
Só restando a cruz erguida
Naquele meio ambiente

Nunca mais um seu parente
No Cariri retornou
Se viveram, se morreram
A ninguém mais importou
Rotina virou constância
Maria virou lembrança
E a vida continuou

Pouco tempo se passou
Nas terras de São Tomé
-O Santo do ver pra crer-
Que depois virou Sumé
Aonde toda criança
Nasce e cresce com esperança
E se envelhece com fé

Se remar contra a maré
É o destino da pobreza
Ter fé nas coisas do mundo
É dos pobres a grandeza
Nesse torrão nordestino
Crer nas obras do Divino
Faz parte da Natureza

Por aquela redondeza
De cima a baixo corria
A notícia de milagres
Naquela cruz de Maria
E de conversa em conversa
Só se falava em promessas
Que a moça resolvia

Começou a romaria
Numa peregrinação
Para o Sítio Cruz da Moça
Com novena e oração
Pedidos se realizavam
Curas se concretizavam
E assim virou tradição.

As terras da região
Foram se valorizando
Cidades foram nascendo
Povoados se formando
Novas secas ocorreram
Porém nunca mais sofreram
Como aquele ano nefando.

O povo sempre adorando,
Rezando, pedindo luz,
A cidade do Amparo
Que é a mais próxima da cruz
É uma terra querida
Por Maria protegida
São Sebastião e Jesus.

Jesus que a todos conduz
São Sebastião o patrono
Maria a mártir da seca
Que pereceu no abandono
A cruz é a tradição
Fincada lá no grotão
No riacho como um trono.

Dormindo o eterno sono
A moça ainda está lá
Nossa vida continua
Como o sistema deixar
Uns com muito outros sem nada
Pobre na vida regrada
E o rico a desperdiçar.

Pobre logo ao despertar
Ainda na escuridão
Tem que render homenagem
Ao avarento patrão
E vai pra luta sonhando
Pedindo prece e rezando
Ao Santo de devoção

Na abastança ou precisão
Se tem muito ou se não tem
Para a morte não tem chance
Se ela vem buscar alguém
De quem precisa por certo
Esteja distante ou perto
Não discrimina ninguém.

Se escrevi mal ou bem
Se usei vocábulo raro
Na poesia de cordel
Qualquer assunto eu encaro.
Em Sumé dos Sucurús
Pedi licença a Jesus
Para falar sobre a Cruz
DE MARIA DO AMPARO.

Série Coisas do Brasil Vol. V

Texto escrito pelo poeta José Lacerda da cidade de Cuité-PB no ano de 2008, foi reeditado em 06 de Agosto de 2008.

Entramos em contato com o autor do texto e ele nos forneceu com exclusividade essa poesia que fala da historia da menina da CRUZ DA MOÇA, uma historia muito triste na nossa cidade que virou ate filme.

Você pode acompanhar outros trabalhos do senhor José Lacerda clicando no Link: http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=40271
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